A Leishmaniose se difere das outras zoonoses por ser uma doença comum a homens e animais, isto é, ambos se infectam através da mesma fonte, que são os insetos invertebrados (vetores). Os animais , neste caso, participam apenas como hospedeiros do agente causador da doença, contribuindo assim para a transmissão e distribuição da infecção.
O protozoário é transmitido de um mamífero hospedeiro para outro (homem ou animal) pela picada do inseto que tenha préviamente se alimentado de um animal infectado.
No Brasil, o mosquito que funciona como o hospedeiro intermediário da Leishmaniose é conhecido como biriguí, mosquito palha ou mosquito pólvora. São menores que o pernilongo comum. Atacam suas vítimas à noite, sugando seu sangue ao mesmo tempo que transmitem as formas infectantes da Leishmania, contidas em sua saliva, para o organismo que irá então desenvolver a doença.
Durante o dia, estes mosquitos se abrigam dentro das residências ou em matas protegidas. Podem se esconder também em buracos nas paredes, ocos de paus e bambus ou em tocas de animais.
Portanto, o mosquito hospedeiro intermediário ao sugar sangue de um animal ou do homem infectados, se contamina e poderá assim transmitir as formas infectantes da Leishmania à outra vítima, que clinicamente poderá se manifestar de duas formas:
A Leishmaniose Cutânea, que no Brasil é denominada de úlcera de Bauru, assim intitulada por ter surgido primeiramente nesta cidade do interior de São Paulo. Sua incidência é menor.
A Leishmaniose Visceral dos Cães, que tem como vítimas susceptíveis, além do homem, os cães em sua maior parte, mas também gatos, cavalos e hamster. É esta a forma da doença mais comum no Brasil e vem crescendo de forma bastante preocupante ultimamente.
Os sintomas da forma visceral, causada pela Leishmania chagasi , uma doença longa e lenta (seu período de incubação pode variar de 2 a 3 semanas ou até 1 ano) são a perda de peso, tosse, febre, diarréia, aumento do volume do baço e fígado e letargia.
Por não surgirem simultaneamente e serem facilmente confundidos com muitas outras condições manifestadas por sintomas semelhantes, o diagnóstico clínico da doença nem sempre é feito precoce e satisfatoriamente. O teste utilizado para identificar esta doença consiste de uma reação alérgica através da inoculação, via intra-dérmica, de uma suspensão fenólica de leptomonas.
O tratamento, além de caro, pode produzir graves efeitos colaterais, em se tratando de medicamentos quimioterápicos.
Apesar da Leishmaniose Visceral ser previamente conhecida como uma doença rural, grandes surtos e epidemias desta doença têm sido reportados no Brasil recentemente em cidades de médio e grande porte. Muito disso se deve a condições epidemiológicas favoráveis associado a uma redução do espaço ecológico natural desta zoonose. Surtos recentes da doença nos estados do Maranhão e Piauí (1994) e em cidades do interior do estado de São Paulo, como Araçatuba e São José do Rio Preto (1998 e 1999), têm preocupado pela velocidade com que a doença parece estar reemergindo.
Se os focos desta doença não forem rapidamente eliminados poderemos assistir a uma disseminação rápida e preocupante, especialmente se a cidade de São Paulo for atingida.
CAUSAS PROVÁVEIS DA EXPANSÃO DA LEISHMANIOSE VISCERAL
1)- A migração populacional das áreas rurais para os centros urbanos, em geral para locais marginais, subúrbios ou favelas, sem infra-estrutura ou sanitarismo suficiente, favorecendo a disseminação de um parasita introduzido inicialmente devido às precárias condições de vida desta população em seus locais de origem (zonas rurais e sertões).
2)- O hábito destas pessoas de manter, em seus quintais, grande número de animais domésticos, como cães, galinhas e cavalos, o que significa farta refeição para os mosquitos transmissores de doenças e um aumento drástico na população de vetores (insetos e roedores) .
3)- A invasão do homem em áreas ecológicas, pelo desmatamento e colonização ou mesmo para formação de fazendas, colocando-o em contato direto com novas espécies animais, facilitando o aparecimento de novas doenças, como cólera, dengue hemorrágica e leishmaniose visceral.
4)- O aumento no número de pessoas imunodepressivas, como os portadores do vírus HIV, também contribui para o ressurgimento de doenças sérias, tidas como anteriormente controladas. Pessoas jovens e subnutridas parecem representar um dos fatores de maior risco para infecção por L. chagasi e leishmaniose visceral, especialmente aquelas que vivem sob pobres condições de vida.
COMO PREVENIR A LEISHMANIOSE
O combate ao mosquito transmissor da doença é o melhor caminho, através da aplicação de inseticidas nos locais onde estes se abrigam.
O isolamento das pessoas contaminadas evitando que estas se exponham ao mosquito hospedeiro intermediário que poderá se infectar ao picá-las.
O tratamento, sempre que possível, destas vítimas. Vacinação em áreas de risco.
Educação sanitária da população é um caminho necessário. Esclarecimento dos riscos, para a população carente, de contaminação por cães, gatos ou cavalos, criados sem critério e vivendo muito intimamente ligados a estas pessoas.
Mecanismos de controle com eficiência técnica para prevenir uma epidemia de leishmaniose visceral e transmissão urbana requer medidas sociais e políticas sérias. Isto deve incluir manutenção de infra-estrutura sanitária satisfatória e melhores condições de vida da população de risco.
Torna-se urgente lutar para manter esta doença dentro das áreas rurais, seu habitat de origem, em níveis baixos e controlados.
O sacrifício dos animais comprovadamente infectados, que é a prática mais comum adotada não deixa de ser uma medida extrema e cruel. MIlhares de cães são sacrificdos o tempo todo, com a justificativa de ser essa a conduta indicada para evitar surtos da doença. Mas já existe tratamento e vacinas que podem salvar a vida de muitos animais, sacrificados sem a menor chance.